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Carta de Londrina
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Minha mãe reza por mim
As múltiplas orações da dona Aracy

Os três reis magros
Moradores do reino da calçada

O Brasil é triste
Os amigos que me pedem dinheiro na rua

No futuro estaremos todos mortos
Argumentação em favor da vida presente

Entra por um lado, sai pelo outro
A conta corrente que insiste em me perturbar

Total de 258 crônicas...
Paulo Briguet - Jornalista

Paulo Briguet nasceu em São Paulo, no ano em que o Brasil ganhava o tricampeonato mundial de futebol. Mas, como nunca foi bom de bola, resolveu escrever. É jornalista em Londrina (PR) e autor do livro de crônicas "Repórter das Coisas". Às vezes comete uns poemas. Carta de Londrina é uma coluna semanal onde ele fala sobre um mundo que consegue ser pequeno e vasto ao mesmo tempo: o cotidiano.

Minha mãe reza por mim
24.11.2006

Na primeira vez em que fui morar fora (para estudar), minha mãe me acompanhou até a rodoviária e chorou. Pensei: “É só a primeira vez”. Ela chorou também na segunda, na terceira e na décima vez. Pedi então a ela que não fosse mais à rodoviária – eu já estava ficando constrangido; era quase um veterano na faculdade e a minha mãe ainda chorava ao se despedir.
     Fui para a rodoviária e minha mãe ficou em casa, onde também deve ter chorado. Mas, a partir daquele dia, ela se concentrou numa outra técnica maternal: a oração.
     Minha mãe reza por mim. Não devo ter apenas um anjo da guarda, mas uma esquadrilha de querubins, todos tributários das rezas da dona Aracy.
     Ontem, por exemplo, eu não fui ao bar. Deve ter sido reza da minha mãe.
     Minha mãe reza por mim quando eu vou à Quinta Sem-Lei e exagero na cerveja. Quando durmo no bar. Quando durmo em festas. Quando esqueço a porta da sala aberta.
     Minha mãe reza por mim para que eu acorde antes de o Miojo queimar. Para que eu não seja demitido. Para que os taxistas e os motoristas de ônibus guiem direitinho. Para que a minha namorada continue gostando de mim, e cuidando de mim, e me dando bronca quando eu mereço (a mãe dela também reza por ela).
     Minha mãe reza para que eu sempre tenha idéias para escrever crônicas – e, se não forem crônicas, podem ser poemas. E, se não forem poemas, podem ser rezas. Rezas que me façam escrever e ganhar a vida.
     Minha mãe reza para que eu ganhe dinheiro; para que eu guarde dinheiro; para que eu não gaste muito dinheiro; para que eu aprenda a dirigir; para que eu tome jeito, enfim.
     Ela reza para que eu me alimente direito (café da manhã, almoço e jantar); para que eu coma frutas e verduras; para que eu faça exercícios; para que eu diminua minha barriga; para que eu vá ao médico fazer os exames que há tanto tempo prometi; para que eu não seja assaltado ao voltar do Bar Brasil. Minha mãe é corintiana, mas sei que reza, não para o Palmeiras ganhar, mas pelo menos para não cair para a Segunda Divisão (reza, mãe!).
     Minha mãe reza para que a visite mais; para que eu telefone mais; para que eu reze mais. Minha mãe reza para que um dia não precise mais rezar tanto por mim. Nesse dia, os anjos finalmente terão sua folga, e minha mãe vai ficar mais tranqüila, pensando em outros motivos para rezar. Mas, mesmo nesse dia, tenho certeza de que ela vai dar uma rezadinha por mim. E Deus vai pensar: “Ah, essa dona Aracy. Não me dá um sossego”.
Comente: briguet@sercomtel.com.br
Leia também: www.tipos.com.br/briguet


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