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Os três reis magros
8.11.2006
Os reis magos seguiram a estrela-guia; os reis magros não têm nada para seguir.
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Há algum tempo eles se ajeitaram ali na calçada, entre a farmácia e o salão de beleza, entre a padaria da Sônia e a peixaria do japonês, perto do posto onde eu compro cerveja.
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Nem magros os reis magros são; têm os rostos e as barrigas inchados. Mas ainda ostentam a natureza delgada de um reino perdido.
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O reino que lhes restou administrar foi o deles mesmos. Reinam sobre o que restou do que eram; do que poderiam ter sido; do que ficou pela metade, ou nem isso. Reis de uma lesada majestade, cujo trono é o cimento impassível da rua.
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O ouro foi roubado; o incenso, queimado; a mirra evaporou-se. Dos presentes só ficou o presente.
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Magos cuja magia escorreu por alguma boca-de-lobo.
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Os reis magos caminharam até a manjedoura; os reis magros só esperam. Esperam a volta de quem possa lhes salvar.
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Batem à porta dos estabelecimentos comerciais para pedir comida ou um trocado. Como quem não quer nada, um deles pergunta:
– Foi aqui que nasceu um menino?
Nunca é.
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Enquanto esperam – ali entre a farmácia e o salão de beleza, entre a padaria e a peixaria –, todo dia é Dia de Reis.
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