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Carta de Londrina
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Minha mãe reza por mim
As múltiplas orações da dona Aracy

Os três reis magros
Moradores do reino da calçada

O Brasil é triste
Os amigos que me pedem dinheiro na rua

No futuro estaremos todos mortos
Argumentação em favor da vida presente

Entra por um lado, sai pelo outro
A conta corrente que insiste em me perturbar

Total de 258 crônicas...
Paulo Briguet - Jornalista

Paulo Briguet nasceu em São Paulo, no ano em que o Brasil ganhava o tricampeonato mundial de futebol. Mas, como nunca foi bom de bola, resolveu escrever. É jornalista em Londrina (PR) e autor do livro de crônicas "Repórter das Coisas". Às vezes comete uns poemas. Carta de Londrina é uma coluna semanal onde ele fala sobre um mundo que consegue ser pequeno e vasto ao mesmo tempo: o cotidiano.

O Brasil é triste
23.10.2006

Tenho encontrado alguns amigos na rua. Não são exatamente amigos, mas eu os chamo assim, por falta de um melhor nome; não gosto da palavra “conhecidos”, e não são estranhos. Aliás, eu concordo com a velha frase: “Nada do que é humano me é estranho”.
     E eu digo uma coisa: esses meus amigos não vão bem. Um brigou com a família; outro esteve no hospital; um terceiro perdeu os dentes; o quarto andou deprimido; o quinto, nos infernos; o sexto bebeu demais; o sétimo, desempregado; o oitavo, mãe doente; o nono, tio entrevado; o décimo, sujo no Serasa. E vai assim. Tudo bem? Não, tudo mal.
     Quase sempre, eles me pedem dinheiro. Quando posso, dou. É sempre um dinheirinho picado: um, cinco, às vezes dez reais. Não me orgulho disso, pois não o faço por bondade. A Bíblia manda que a nossa mão esquerda não veja o que a direita fez; não dou esmolas para parecer bom ou porque desejo assim garantir meu lugarzinho no Paraíso. Faço-o por razões menos nobres: não sei dizer não; vivo com pressa; é uma forma de encerrar o papo. Esmola não deixa ninguém bem, nem quem dá, nem quem recebe – exceto quando quem dá a grana é o governo.
     Esses amigos pedem dinheiro; o dinheiro não mais retornará e, portanto, é esmola. Mas eles nunca usariam a palavra. É sempre um dinheirinho para comprar remédio; para inteirar uma passagem pra Arapongas; para comprar um pão e um leite; para encher o tanque porque a gasolina do carro acabou ali na Arthur Thomas.
     Na verdade, não me interessa para onde vai o dinheiro da esmola; nunca me interessou. O dinheiro passa a ser de quem o recebeu, e este é livre para aplicar-lhe da melhor maneira, seja investindo na Bolsa de Valores, comprando um dossiê ou tomando uma cachaça. (Aí está um princípio do liberalismo, e eu sou um liberal.)
     Vou confessar outra coisa. Se tenho algum trocado na carteira, às vezes dou dinheiro para esse pessoal que fica fazendo malabarismo no semáforo. A chance é mais ou menos de 50%. Mas, se o sujeito deixa cair o bastão, eu fico com pena, e dou a grana com toda certeza.
     Uma amiga minha – de quem eu gosto muito, e que não pede esmola – acha que os malabaristas de sinal trazem alegria para o cotidiano. Pois eu acho o contrário. Fazer malabarismo no sinal já é um negócio triste; mas deixar cair o bastão é de uma tristeza oceânica, quase um pequena tragédia. Dou dois reais.
     Tudo bem no Brasil? Não, tudo mal. Esse país é imensamente triste. É um bastão caído no asfalto, em berço esplêndido.
Comente: briguet@sercomtel.com.br
Leia também: www.tipos.com.br/briguet


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