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O Brasil é triste
23.10.2006
Tenho encontrado alguns amigos na rua. Não são exatamente amigos, mas eu os chamo assim, por falta de um melhor nome; não gosto da palavra “conhecidos”, e não são estranhos. Aliás, eu concordo com a velha frase: “Nada do que é humano me é estranho”.
E eu digo uma coisa: esses meus amigos não vão bem. Um brigou com a família; outro esteve no hospital; um terceiro perdeu os dentes; o quarto andou deprimido; o quinto, nos infernos; o sexto bebeu demais; o sétimo, desempregado; o oitavo, mãe doente; o nono, tio entrevado; o décimo, sujo no Serasa. E vai assim. Tudo bem? Não, tudo mal.
Quase sempre, eles me pedem dinheiro. Quando posso, dou. É sempre um dinheirinho picado: um, cinco, às vezes dez reais. Não me orgulho disso, pois não o faço por bondade. A Bíblia manda que a nossa mão esquerda não veja o que a direita fez; não dou esmolas para parecer bom ou porque desejo assim garantir meu lugarzinho no Paraíso. Faço-o por razões menos nobres: não sei dizer não; vivo com pressa; é uma forma de encerrar o papo. Esmola não deixa ninguém bem, nem quem dá, nem quem recebe – exceto quando quem dá a grana é o governo.
Esses amigos pedem dinheiro; o dinheiro não mais retornará e, portanto, é esmola. Mas eles nunca usariam a palavra. É sempre um dinheirinho para comprar remédio; para inteirar uma passagem pra Arapongas; para comprar um pão e um leite; para encher o tanque porque a gasolina do carro acabou ali na Arthur Thomas.
Na verdade, não me interessa para onde vai o dinheiro da esmola; nunca me interessou. O dinheiro passa a ser de quem o recebeu, e este é livre para aplicar-lhe da melhor maneira, seja investindo na Bolsa de Valores, comprando um dossiê ou tomando uma cachaça. (Aí está um princípio do liberalismo, e eu sou um liberal.)
Vou confessar outra coisa. Se tenho algum trocado na carteira, às vezes dou dinheiro para esse pessoal que fica fazendo malabarismo no semáforo. A chance é mais ou menos de 50%. Mas, se o sujeito deixa cair o bastão, eu fico com pena, e dou a grana com toda certeza.
Uma amiga minha – de quem eu gosto muito, e que não pede esmola – acha que os malabaristas de sinal trazem alegria para o cotidiano. Pois eu acho o contrário. Fazer malabarismo no sinal já é um negócio triste; mas deixar cair o bastão é de uma tristeza oceânica, quase um pequena tragédia. Dou dois reais.
Tudo bem no Brasil? Não, tudo mal. Esse país é imensamente triste. É um bastão caído no asfalto, em berço esplêndido.
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