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No futuro estaremos todos mortos
10.10.2006
No futuro estaremos todos mortos. Patéticas as nossas discussões. Ridículas as vaidades. Lula, Geraldo, Heloísa, Cristovam, Ey-ey-ey-mael, um democrata-cristão. É tudo de César, pobre César... Dossiês forjados ou autênticos, comprados com dinheiro público ou não – todos mortos. PT, PSDB, PFL, PSOL: a grande roda da história. Rá! Essa é boa.
O Freud de Brasília, tão morto quanto o de Viena. De todos, só um restará um lapso de memória. No futuro seremos vertigens sem nome; fumaça de fogueiras extintas; mares mortos aterrados; sal sem sal; piadas incompletas; o ato falho de alguém que nem saberá falar nossa língua – porque ela também estará morta, como a de César. Nem mesmo os papagaios e as tartarugas terão lembrança do velho idioma.
Se eu fizer um filho em você esta noite, ele nascerá daqui a alguns meses. Gritará quando vier à luz, porque saberá no fundo: é o início. No futuro seremos da morte.
Todos esses que hoje gritam e fervem e apontam os dedos – eu incluído – estaremos bem longe. No pó. Na viração. Na moagem sem mó. Nosso filho – feito, quem sabe, hoje à noite – com sorte estará aqui por uns 90 anos. Depois, a mesma sorte, a mesma morte. O mesmo reino.
Escrevo num ônibus. Se o ônibus não explodir até meu ponto, estarei vivo por mais algum tempo. Mas nele – no futuro – a morte vai levar todos os passageiros, motorista e cobrador. A morte, sem catraca. A morte, sem passagem.
No futuro estaremos todos mortos. Seremos a sombra da sombra da sombra; as imperceptíveis ondas no lago de uma pedra arremessada há mil anos – há um milhão. Antes do lago, antes da água, antes do vapor. E seremos o lago do lago do lago. E seremos a pedra da pedra da pedra. Todos mortos.
Por isso vou agora para o bar tomar uma cerveja. Chegou a quinta-feira. Eu te amo e tenho saudades. O tempo é curto; aproveitemos. A noite começou. O reino não é este. No futuro estaremos todos vivos. Amém – e saúde.
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