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Entra por um lado, sai pelo outro
29.9.2006
Ontem pela manhã, depois de uma longa espera de três anos, o Fisco brasileiro reconheceu que não sou um sonegador e, sem alarde, depositou, em minha corrente, alguns caraminguás referentes à devolução de imposto de renda, ano-base 2003.
Mas, nessa mesmíssima manhã, recebo o telefonema de uma senhorita ou senhora chamada Sueli, funcionária da Atalaia, empresa prestadora de serviços para o Banco Bravesso.
– Quem fala é o senhor Paulo Antônio Briguet Lourenço?
Quando me tratam pelo nome completo assim, é que lá vem chumbo. Respondo como de costume:
– Seu criado.
– Senhor Paulo, consta em nossos cadastros uma série de débitos referentes à sua conta no Banco Bravesso.
– Impossível, moça. Eu encerrei a minha conta no Bravesso no ano passado.
– Mas a informação que eu tive é essa, senhor. A não ser que tenha havido uma falha em nossos registros.
– Certamente houve uma falha nos registros, moça. Eu encerrei a conta no ano passado - o que não é nada fácil, como você deve saber – e paguei uma bolada para cobrir meus débitos. Graças à ajuda do meu pai Estou quite com o Bravesso. Não tenho mais conta lá; não devo mais um centavo por lá.
– O senhor tem os comprovantes do encerramento de conta?
– Devem estar em minha casa. Mas no momento estou no trabalho.
– Pois, não, senhor. Vou estar verificando nossos registros e depois dou um retorno.
*****
O retorno veio. E o pessoal do Bravesso, onde não tenho conta há um ano, me informou que devo ao banco a quantia de R$ 1.048,97 – isso depois de ter encerrado minha conta seguindo todos os procedimentos burocráticos.
Mesmo assim, vou ter que ir à agência do Bravesso, de posse de todos os documentos, durante o meu horário de trabalho – eles só atendem das 11 às 16 horas –, para provar que não sou caloteiro de uma conta que nem existe mais.
Kafka não imaginaria uma história mais esdrúxula. Na mesma manhã em que o Fisco me devolve uns trocos, o banco Bravesso quer subtraí-los. É a sina do brasileiro: entra por um lado, sai pelo outro.
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