|
Relatório sentimental do Tio Briguet
7.12.2007
Há uns cinco anos fui almoçar no centro da cidade e vi um bebê
no restaurante. Era uma linda menina japonesa; não tinha mais de seis meses.
Careca, rechonchuda, cabeça redonda. A mãozinha mais delicada deste
mundo. O rosto, minúsculo, parecia esculpido pessoalmente por Deus.
Durante alguns instantes contemplei a japonesinha e senti um amor incondicional,
absoluto, inexplicável por aquela criança. Com dificuldade reprimi
o impulso de ir até ela e tomá-la nos braços; os pais não
entenderiam.
Eu não sabia, mas aquela situação no restaurante já
era um prenúncio do amor que eu sentiria por minha sobrinha. Liz Briguet
Yafushi nasceu em 10 de novembro, algumas horas depois do meu casamento com Rosângela.
Minha irmã, Fernanda, e meu cunhado, Roger, naturalmente não puderam
ir à cerimônia e à festa em Londrina. Ficaram em Bauru, pois
Liz já dava mostras de querer nascer.
Do dia 10 para cá, tive que refrear meus impulsos de largar tudo e vir
para Bauru conhecer Liz. Havia antes a lua-de-mel e uma série de compromissos
de recém-casado. No navio, durante a lua-de-mel, eu disse à Rosângela:
“É possível a gente ter saudade de alguém que não
conhece?” Sim, é possível. É um sentimento análogo
à “saudade do Céu”, a que Camões se refere em
“Sôbolos rios que vão” (poema que eu tive ocasião
de ler no enterro do amigo e poeta Thomaz D'Amico, no dia 7, a pedido da família
D'Amico).
Ontem conheci a Liz. É a coisa mais bonita do mundo. Tem a boca da mãe
e os olhos puxados do pai. Pessoalmente esculpidos por Deus.
O que me surpreende nos bebês humanos é a total dependência.
Eles não fazem nada sozinhos – além de mamar, chorar, cocô
e xixi. Já vi o parto de uma égua, num desses documentários
do National Geographic, e me surpreendeu a destreza do filhote, que já
sai do ventre andando (dizem que o cavalo só se deita para morrer). Mesmo
os filhotes de cachorro e gato, embora não tenham a mesma agilidade dos
adultos, sabem andar e têm chances de sobreviver se forem bruscamente abandonados
à natureza. O filhote do homem, não. A sobrevivência de um
bebê é um fenômeno exclusivo do amor. Até uma idade
mais ou menos avançada, ele precisa de amor 24 horas por dia para aprender
a caminhar sobre duas pernas. E, mesmo depois de assumir a condição
bípede, de animal que contempla o horizonte, o ser humano continuará
mantendo essa necessidade perpétua de amor, necessidade que eu e Rosângela
celebramos um dia antes do nascimento de Liz.
E, como profissional do trocadilho, este post assumidamente sentimental termina
com a declaração de que estou muito, muito feliz.
|