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Dinheiro
27.9.2007
Minha relação com o dinheiro é difícil. Ele não gosta de mim. Antes, eu procurava me enganar; duas ou três citações de Marx “resolviam” o caso. Eu pagava desamor com desamor. Ele era o “capital”, a maldita mola do mundo; era o cerne de todos os conflitos e injustiças da humanidade. A Bíblia diz que o homem não deve ser escravo do dinheiro. Mas o ódio também é uma forma de escravidão. Se ele não gostava de mim, eu também não gostava dele. Um perfeito escravo.
A juventude passou; com ela, as veleidades comunistas. Passei dos 30, mas minha habilidade com o dinheiro continua a mesma – nenhuma. Pensando bem, restou algo de vermelho em mim: a conta corrente. Sou um capitalista amador.
Nunca entendi as flutuações do dinheiro. Por que vale mais hoje, vale menos amanhã, vale nada outro dia? Não sei. Explica-se: o final de minha infância coincide com o início do governo Sarney. Entre os anos 80 e 90, as notas de dinheiro mudavam com as estações. Dinheiro antigo era dinheiro inexistente. A inflação é uma forma de loucura. Sou um ser inflacionado. Raciocino em cruzados.
No dicionário, dinheiro é uma das palavras com maior número de sinônimos: arame, cascalho, erva, chapa, cheta, cobre, algum, mufunfa, pataca, legume, ouro, vento, verba, tusta, gaita, jabaculê, coscorrinho, capital, caraminguá, jimbongo, pilimpilim, dim-dim, gás, numerário, vintém, gadé, bagulho, bazaruco, joão-da-cruz...
Só a palavra diabo tem mais sinônimos que dinheiro. Pinga, acho que também tem mais. Diabo vem de diavolo – aquele que divide. Diabo, pinga e dinheiro dividem os homens. Mas do diabo se foge com fé; da pinga, com temperança; como fugir do dinheiro?
Não sei lidar com dinheiro e não sei lidar com números. Dizem que certas tribos só sabem contar até três – mais do que isso são “muitos”. Assim é minha relação com a grana. Só sei contar dinheiro até um certo limite – muito reduzido. Não entendo por que as pessoas formam filas nas lotéricas quando a Mega Sena acumula. Para mim, ganhar 10 ou 50 milhões seria a mesma coisa – “muitos”.
Dinheiro, se meu, é irreal. O poeta e. e. cummings disse: “Vivo tão além do meu dinheiro que podemos quase dizer que vivemos separados”. Eu não vivo além do meu dinheiro – tenho hábitos relativamente modestos –, mas entendo o que cummings quis dizer. O problema básico é que eu não sei o que é dinheiro. Não sei. Nunca soube.
“Dinheiro não tem a mínima importância, desde que se tenha muito”, dizia Truman Capote. Logo, dinheiro é importante para mim.
Agora que vou casar, preciso mudar minha relação com o real. Preciso conhecê-lo de perto. É hora de guardar minha verba, economizar meu tutu, ampliar minha receita, cortar minha despesa, aplicar meu capital. Alguém aí sabe onde eu posso encontrar algum?
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