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Confissões de um cara patético
2.10.2007
Vivemos cercados por coisas que não compreendemos. Queremos cervejinha beeeem gelada, mas o que sabemos de fermentação, de refrigeração? Alguém seria capaz de construir uma geladeira, ainda que rudimentar? E as cervejas feitas em casa, ao menos as que arrisquei tomar até hoje (por educação), me pareceram péssimas.
Neste momento, estou sentado sobre uma cadeira de metal, com assento de espuma. Desconfio que sou incapaz até mesmo de fazer um banquinho de madeira, daqueles que o pessoal usa em churrascos como suporte de pratinhos de plástico. E que segredo sei eu de plásticos? Plástico e vidro continuam sendo grandes enigmas para mim. Um inseto compreende a natureza do vidro tão bem quanto eu. E eu também não entendo de insetos. Moscas e muriçocas, percevejos e pulgas, besouros e joaninhas, qual a diferença? Minha ignorância é abissal como as profundidades atingidas pelo Capitão Nemo.
Apesar de conversar sempre com meu fígado, nada sei sobre as milhares de funções que ele cumpre (dentro de mim mesmo!). Tudo que eu tenho a dizer para ele, antes de dormir, são duas Neosaldinas. E nunca vou entender o milagre das Neosaldinas – só sei que elas são iguaizinhas a um Confeti marrom.
Se eu voltasse ao tempo das cavernas ou fosse para um campo de extermínio, não duraria uma semana. Morto na primeira pedrada, na primeira vacilada com um SS. Tenho a nítida impressão de ser um erro da evolução das espécies. Se eu sobrevivo, Deus existe.
Abandonado no meio da mata amazônica, acho que eu duraria umas sete horas. Cinco, talvez. Como diferenciar a mandioca braba e a comestível? Que frutos são venenosos? Eu não sei nem reconhecer um aipim! (Vou ao dicionário, e constato que aipim É mandioca. Mas na floresta não tem Aurélio).
Quando era moleque, piá de prédio, ganhei um Almanaque do Escoteiro do Tio Patinhas, mas esqueci tudo. Aliás, acabo de lembrar que o Almanaque não era meu: apenas emprestei do Octávio Gordão. Por onde andará Octávio Gordão?
Meu negócio é o bem-bom: banho quente, cama gostosa, lig-pizza, rádio-táxi, TV a cabo, computador, microondas, cd player com João Sebastião, celular, ar condicionado – principalmente este último.
Henry Miller, meu escritor preferido, odiava ar condicionado. Eu considero a melhor invenção do século 20, depois da Neosaldina. Sulfa, penicilina, computador? Nem saem na foto. Viva o ar condicionado, que eu também não sei como funciona.
Fora não saber dirigir, assobiar, os naipes do baralho, combinar roupa, fazer caipirinha, falar inglês.
Que vergonha.
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