A primeira lembrança que tenho de Rodrigo Grota é a de um rapaz muito novo, estudante de Comunicação com calvície precoce, que falava sem parar sobre cinema no balcão do Bar Brasil. O ano era 1997. Desde então, conversamos muito (quem conhece Grota, sabe que ele gosta de falar), trabalhamos muito (às vezes juntos) e consumimos alguns decalitros de cerveja no referido bar.
Desde o início, Grota me impressionou pela quantidade de informações acumuladas sobre filmes e livros. De vez em quando, a gente parava de falar de cinema e literatura, e passava a outros assuntos: garotas e futebol. Era uma forma de lembrar que a vida não era só para ser contemplada, mas também para ser vivida.
No dia 10 de julho, fui à estréia do curta-metragem “Londrina em três movimentos”, primeiro filme de Rodrigo Grota, que ele dirigiu e roteirizou. Está provado: Grota, que tanto sabe falar sobre cinema, também sabe fazê-lo.
“Londrina em três movimentos” é um poema visual sobre uma cidade-enigma. Ao completar 70 anos, Londrina ganha de presente uma obra de arte que foge dos clichês históricos.
Quando se mostra uma cidade ou um país, principalmente em tempos de efemérides, há duas tentações que parecem opostas, mas na verdade são complementares: o ufanismo do progresso e o ufanismo da miséria. A ambas, o filme está imune. A Londrina de Grota é a visão individual, subjetiva e poética de um fenômeno urbano. Não se ufana nem dos bens, nem dos males da cidade. Não procura heróis nem vítimas. Dá a cada um a oportunidade de conhecer melhor um lugar que não se explica nem por estatísticas, nem por aquarelas; nem por loas, nem por elegias.
A bela música de Arrigo Barnabé é o fio invisível nessa trajetória pela natureza, o concreto e o imaginário da cidade (os três movimentos do título do filme). Som e imagem parecem ter sido feitos um para o outro desde o primeiro dia da Criação. Difícil imaginar as cenas de Grota sem as notas de Arrigo.
Na parte técnica e mesmo nas escolhas estéticas, há influências nítidas de outros cineastas, mas não elas tiram o mérito do realizador – antes, servem para demonstrar a sua ampla cultura cinematográfica.
O filme mostra uma cidade que desconhecemos, ou que só conhecemos por fragmentos – mesmo nós que vivemos nela. As múltiplas imagens certamente foram colhidas com o talento de José de Aguiar, Ygor Raduy e Francelino França – que fizeram milhares de fotos da Cidade e deram conteúdo ao story-board do curta. Como se sabe, o trabalho de equipe é fundamental em cinema – e Grota contou com uma equipe coesa, formada durante a Mostra Londrina de Cinema.
Nenhum ser humano aparece em “Londrina em três movimentos”. No entanto, ele está por toda parte: no olhar lançado sobre a natureza; nas concretas realizações do trabalho; no imaginário que reinventa o natural, o palpável e a própria condição humana. Deixando o personagem principal como elipse da realidade, Rodrigo Grota fez um filme, acima de tudo, humanista.
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