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Hoje faz um mês
12.12.2007
Hoje faz um mês que estamos casados. Meu único medo é o velho
clichê: acordar de repente e ver que tudo era um sonho. Escrevo e publico
estas fotos (há mais, muito mais) só para criar mais uma prova consistente
de que tudo é verdade.
O suor que escorreu pelo meu rosto na hora do altar – e que milagrosamente
sumiu quando a Rosângela me enxugou com um lenço – já
foi uma evidência da realidade dos fatos. Quem me conhece sabe que o lenço
é meu companheiro inseparável, como se fosse um RG de pano; ele
não poderia faltar num momento tão importante.
Durante muito tempo, estive consumido pelo ódio. Acreditava que a ira,
o rancor, o sarcasmo e a destruição eram os caminhos mais aceitáveis
para uma vida autêntica, sinônimos da razão. Queria fazer tabula
rasa do mundo e começar tudo de novo. Maquiavel nunca disse literalmente
aquela famosa frase: “Os fins justificam os meios”. Disse algo parecido.
Mas o pobre-diabo do Nikolai Bukharin – a quem Lênin “acusava”
de ser escolástico e não marxista – parodiou a frase em termos
muito mais interessantes: “Os fins condicionam os meios”. Não
foi à toa que morreu assassinado em 1938 por seu ex-amigo Stálin,
a quem ele tratava carinhosamente por Koba, apelido dos velhos tempos de clandestinidade.
Os fins condicionam os meios. Bukharin aprendeu isso – se é que aprendeu
– da pior maneira. Não se chega a um reino de amor por uma doutrina
do ódio. Não se é feliz ridicularizando a felicidade. E foi
isso que eu aprendi a mulher que me enxugaria o rosto no altar. Certa vez eu disse
que milagres são raros. Estava errado. Milagres acontecem todos os dias.
Basta vê-los.
É como na velha história de Michelangelo, que estou sempre repetindo
(meus amigos sabem que a repetição pode ser uma virtude ou um flagelo).
Perguntaram ao escultor como ele havia conseguido fazer algo tão perfeito
quanto o Moisés. O artista simplesmente disse: “A escultura já
está pronta na rocha. Eu apenas tiro os excessos”. Rosângela
conseguiu tirar os meus excessos, e até descobriu que eu havia escrito
um livro para ela (livro que distribuímos aos convidados do casamento).
Não fiquei tão belo quanto o Moisés – longe, muito
longe disso! –, mas o dom artístico da moça é inegável.
Conseguiu até fazer com que eu me vista mais ou menos bem (de vez em quando)!
Casei na Igreja Coração de Maria. A leitura do Evangelho –
feita por nossa querida amiga Valéria Drummond – falou do primeiro
milagre de Jesus. Aconteceu numa festa de casamento: a transformação
de água em vinho. E quem é a principal responsável por esse
primeiro milagre? Ela: Maria. Quando a mãe vem procurar Jesus para dizer
que o vinho acabou, ele dá uma resposta que parece até malcriada:
– Que queres de mim, mulher? Ainda não chegou a minha hora.
Esse tratamento pouco usual e até ríspido à própria
mãe (“mulher”) tem um significado maior. Jesus está
dizendo ali que Maria encarna o próprio ideal feminino. É a mulher
entre as mulheres, a nova Eva, sem pecado.
Ainda não era chegada a hora de Jesus revelar seus poderes; só mesmo
Maria, com seu amor ideal, é capaz de vencer a lógica do tempo.
Como todos sabem, Jesus transforma a água em vinho – e vinho da melhor
qualidade.
O casamento é um desses instantes em que o tempo é vencido, e se
abre uma pequena janela para a eternidade. Abatido, o tempo tentou se vingar na
noite do dia 9 de novembro: chovia um quase-dilúvio.
Duas Marias não puderam ir ao meu casamento. Maria Costa Briguet, minha
avó, foi embora em junho de 2005, depois de passar vários anos me
pedindo para esperá-la. “Eu quero estar lá no seu casamento,
hein, filho?” Infelizmente não deu tempo, vó. E a culpa foi
toda minha.
Outra Maria que não esteve no casamento foi a Maria Fernanda Briguet, minha
irmã. O motivo era mais do que importante: Liz Briguet Yafushi nasceu no
dia seguinte, horas depois da festa.
Mas, pensando bem, as duas Marias estavam lá, sim. Afinal, o casamento
provoca estranhas mudanças no tempo. Maria Fernanda apareceu numa mensagem
por vídeo (uma bela surpresa). E eu senti que alguém mais estava
no altar da Igreja Coração de Maria.
Felicidades a todos que chegaram até aqui. E todo amor do mundo para você,
minha mulher, artista do improvável.
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