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Hoje faz um mês
O amor capaz de vencer a lógica do tempo

Relatório sentimental do Tio Briguet
Primeira visita à pequena Liz Briguet Yafushi

Nego Véio e Mané Briguet
Ele sempre me pede cincão

Confissões de um cara patético
As (inúmeras) coisas que eu não sei fazer

Dinheiro
Ela não gosta de mim (mas é porque eu sou pobre)

Total de 258 crônicas...
Paulo Briguet - Jornalista

Paulo Briguet nasceu em São Paulo, no ano em que o Brasil ganhava o tricampeonato mundial de futebol. Mas, como nunca foi bom de bola, resolveu escrever. É jornalista em Londrina (PR) e autor do livro de crônicas "Repórter das Coisas". Às vezes comete uns poemas. Carta de Londrina é uma coluna semanal onde ele fala sobre um mundo que consegue ser pequeno e vasto ao mesmo tempo: o cotidiano.

Hoje faz um mês
12.12.2007

Hoje faz um mês que estamos casados. Meu único medo é o velho
     clichê: acordar de repente e ver que tudo era um sonho. Escrevo e publico
     estas fotos (há mais, muito mais) só para criar mais uma prova consistente
     de que tudo é verdade.

     O suor que escorreu pelo meu rosto na hora do altar – e que milagrosamente
     sumiu quando a Rosângela me enxugou com um lenço – já
     foi uma evidência da realidade dos fatos. Quem me conhece sabe que o lenço
     é meu companheiro inseparável, como se fosse um RG de pano; ele
     não poderia faltar num momento tão importante.

     Durante muito tempo, estive consumido pelo ódio. Acreditava que a ira,
     o rancor, o sarcasmo e a destruição eram os caminhos mais aceitáveis
     para uma vida autêntica, sinônimos da razão. Queria fazer tabula
     rasa do mundo e começar tudo de novo. Maquiavel nunca disse literalmente
     aquela famosa frase: “Os fins justificam os meios”. Disse algo parecido.
     Mas o pobre-diabo do Nikolai Bukharin – a quem Lênin “acusava”
     de ser escolástico e não marxista – parodiou a frase em termos
     muito mais interessantes: “Os fins condicionam os meios”. Não
     foi à toa que morreu assassinado em 1938 por seu ex-amigo Stálin,
     a quem ele tratava carinhosamente por Koba, apelido dos velhos tempos de clandestinidade.

     Os fins condicionam os meios. Bukharin aprendeu isso – se é que aprendeu
     – da pior maneira. Não se chega a um reino de amor por uma doutrina
     do ódio. Não se é feliz ridicularizando a felicidade. E foi
     isso que eu aprendi a mulher que me enxugaria o rosto no altar. Certa vez eu disse
     que milagres são raros. Estava errado. Milagres acontecem todos os dias.
     Basta vê-los.

     É como na velha história de Michelangelo, que estou sempre repetindo
     (meus amigos sabem que a repetição pode ser uma virtude ou um flagelo).
     Perguntaram ao escultor como ele havia conseguido fazer algo tão perfeito
     quanto o Moisés. O artista simplesmente disse: “A escultura já
     está pronta na rocha. Eu apenas tiro os excessos”. Rosângela
     conseguiu tirar os meus excessos, e até descobriu que eu havia escrito
     um livro para ela (livro que distribuímos aos convidados do casamento).
     Não fiquei tão belo quanto o Moisés – longe, muito
     longe disso! –, mas o dom artístico da moça é inegável.
     Conseguiu até fazer com que eu me vista mais ou menos bem (de vez em quando)!

     Casei na Igreja Coração de Maria. A leitura do Evangelho –
     feita por nossa querida amiga Valéria Drummond – falou do primeiro
     milagre de Jesus. Aconteceu numa festa de casamento: a transformação
     de água em vinho. E quem é a principal responsável por esse
     primeiro milagre? Ela: Maria. Quando a mãe vem procurar Jesus para dizer
     que o vinho acabou, ele dá uma resposta que parece até malcriada:

     – Que queres de mim, mulher? Ainda não chegou a minha hora.

     Esse tratamento pouco usual e até ríspido à própria
     mãe (“mulher”) tem um significado maior. Jesus está
     dizendo ali que Maria encarna o próprio ideal feminino. É a mulher
     entre as mulheres, a nova Eva, sem pecado.

     Ainda não era chegada a hora de Jesus revelar seus poderes; só mesmo
     Maria, com seu amor ideal, é capaz de vencer a lógica do tempo.
     Como todos sabem, Jesus transforma a água em vinho – e vinho da melhor
     qualidade.

     O casamento é um desses instantes em que o tempo é vencido, e se
     abre uma pequena janela para a eternidade. Abatido, o tempo tentou se vingar na
     noite do dia 9 de novembro: chovia um quase-dilúvio.

     Duas Marias não puderam ir ao meu casamento. Maria Costa Briguet, minha
     avó, foi embora em junho de 2005, depois de passar vários anos me
     pedindo para esperá-la. “Eu quero estar lá no seu casamento,
     hein, filho?” Infelizmente não deu tempo, vó. E a culpa foi
     toda minha.

     Outra Maria que não esteve no casamento foi a Maria Fernanda Briguet, minha
     irmã. O motivo era mais do que importante: Liz Briguet Yafushi nasceu no
     dia seguinte, horas depois da festa.

     Mas, pensando bem, as duas Marias estavam lá, sim. Afinal, o casamento
     provoca estranhas mudanças no tempo. Maria Fernanda apareceu numa mensagem
     por vídeo (uma bela surpresa). E eu senti que alguém mais estava
     no altar da Igreja Coração de Maria.

     Felicidades a todos que chegaram até aqui. E todo amor do mundo para você,
     minha mulher, artista do improvável.
Comente: briguet@sercomtel.com.br
Leia também: www.tipos.com.br/briguet


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